Festival Maracagrande

Uma cidade com forte potencial na arte, Campina Grande é sede de diversos coletivos culturais. Um deles é o Maracagrande, grupo de percussão fundado em 2009, que até hoje permanece ativo promovendo a música regional. Este ano, o Maracagrande completa 12 anos de existência e a comemoração será feita no festival realizado pelo grupo.

O Maracagrande nasceu a partir de uma inquietação do fundador Thiago Tarta, que já participava de uma banda percussiva antes e teve a ideia de expandir esse movimento na cidade. “O Maracagrande foi na verdade uma ideia na minha cabeça ‘doida’ de tentar manter o movimento que eu participava em períodos juninos aqui na cidade. Só rolava batuque aqui na época de São João. Eu participava de uma banda chamada Repercussão e ficava só entre a gente essa ideia. A gente não conseguia reunir a galera pra fazer o movimento acontecer. Até que quando eu saí dessa banda, eu convidei um amigo meu de Olinda, chamado Sandro Barros, que é mestre de um grupo percussivo de lá. Na época minha ex-companheira me ajudou a bolar todo o esquema e a gente conseguiu, com ajuda de um e de outro, pagar as passagens e um cachê pro Sandro. Fizemos algumas inscrições e ele ministrou a primeira oficina de batuque aqui na cidade, em 20 de novembro de 2009 e foi assim que nasceu o Maracagrande”, conta o fundador.

Parte do grupo Maracagrande reunido para apresentação (foto: Acervo).

O Festival Maracagrande acontece tradicionalmente em comemoração ao aniversário do grupo. Em 2020, devido à pandemia do coronavírus, não foi possível realizar o evento. Por este motivo, este ano ainda será comemorado o festival acontecerá de forma virtual. Serão dois dias de festival, que contarão com atrações musicais e oficinas. Nesta edição, além da festividade que acontece todos os anos, o evento vem com um propósito diferente: o festival carrega o tema “A Rainha da Borborema é Preta”, baseado no manifesto intitulado com o mesmo nome, escrito por um dos membros do grupo. Williams Cabral, autor do manifesto, explica que a ideia é levar ao festival uma discussão para além da comemoração, levantando debates acerca das questões raciais na cidade.

“Eu escrevi o manifesto para falar um pouco da nossa história, que é uma história genocida, de extermínio dos povos nativos. Os séculos XVIII e XIX tem a presença da população afro comumente escravizada durante o período colonial do Brasil. Então eu escrevi o manifesto pensando em homenagear esses grupos étnicos de Campina Grande que não são colocados em pauta, devido ao racismo estrutural e o racismo institucional que permanece na cidade”, explica o autor.

Cabral também deixa claro que o objetivo não é exigir um trono ou um destaque maior para a população afro. Seu intuito é apenas levantar a discussão, a fim de que o assunto seja mais abordado na sociedade. “Já surgiram até outras discussões sobre os povos nativos, que dizem que Campina não é só preta, ela também é indígena. Nossa intenção é essa mesmo, é provocar para que outras etnias possam se mostrar, para que a discussão possa se acender na cidade, porque Campina Grande é uma cidade muito racista estruturalmente e também institucionalmente, ou seja você não vê com frequência a presença afro e indígena nos cargos altos. Agora a gente tem a vereadora Jô Oliveira que representa a mulher negra, isso é massa. Mas e os descendentes dos Índios Cariris? Onde estão os descendentes dos nativos que foram exterminados na cidade? Eles existem ainda? Se eles existem, estão onde? Então acho que o festival vem para trazer essas discussões e para debater sobre a população campinense de forma não eurocêntrica, de forma não ocidentalizada, mas agora de forma afrocentrada e colocar os indígenas em evidência, tirando o foco da branquitude”, esclarece Williams.

Apresentação do Maracagrande em um dos festivais realizados (foto cedida pelo grupo).

O festival será realizado com o fomento da lei Aldir Blanc de Apoio à Cultura, que prevê ações emergenciais para auxiliar o setor cultural de todo o Brasil nesse momento de pandemia, através do Prêmio Festivais de Artes 2020 da Prefeitura de Campina Grande. A lei foi sancionada em junho de 2020 e quando saiu o primeiro edital na Paraíba, o grupo Maracagrande fez algumas adaptações no projeto do evento para submetê-lo.

O Festival Maracagrande contará com seis atrações musicais que foram escolhidas por meio de votação entre os integrantes do grupo. Cecilia Amorim, uma das organizadoras do evento, confessa que foi difícil escolher entre tantos grupos culturais na cidade: “Aqui em Campina a gente tem muitos grupos e seria injusto escolher apenas alguns. Foi muito dolorido para a gente escolher apenas seis atrações. Teve muita conversa, rolou muitos convites e precisou ter essa votação, porque se dependesse do coração do Maracagrande a gente escolheria muita gente e não temos condições pra isso. O ‘Maraca’ vem há 12 anos fazendo esses festivais e promovendo cultura e a intenção é que a cada ano a gente consiga crescer ainda mais e abraçar muitas outras atrações, que não se limite a seis, doze ou vinte e quatro, que se expanda para fora de Campina também. Esse é um desejo meu e acredito que do grupo também”. A programação completa do festival, com todas as atrações, está disponível nas redes sociais do Maracagrande.

Além das atrações musicais, o festival também irá promover oficinas gratuitas relacionadas à cultura regional. “O Maracagrande, em seus aniversários promove oficinas em ação social ao público. Esse ano vamos fazer quatro oficinas nesse meio cultural”, conta Cecília. Entre as oficinas citadas pela integrante do grupo, estão: Oficina com Mestra Ana do Coco do quilombo do Ipiranga; Raízes ancestrais: Danças populares do Nordeste e Oficina Maracagrande: História, influência e batuque. Esta última será ministrada pelo fundador do Maracagrande, Thiago Tarta. “Na oficina a gente vai falar um pouco sobre como o Maraca influenciou a transição do que era o tambor – antes do Maracagrande em Campina Grande – e o que é a cultura do tambor depois do Maracagrande na nossa cidade e qual influência o grupo teve em todo esse movimento que acontece hoje em dia. Tem coco de roda e tem mais grupos de batuque acontecendo. Também vamos mostrar o nosso batuque em si, fazendo uma oficina para iniciantes darem seus primeiros passos”, explica o fundador.

Programação de oficinas do Festival Maracagrande (reprodução/Instagram).

As oficinas serão transmitidas pelo aplicativo de vídeo chamadas Google Meet e pelo YouTube, no canal do Maracagrande. As inscrições podem ser feitas através deste link disponível nas redes sociais do grupo. Para fazer a transmissão das atrações do festival, o grupo escolheu a TV Nordestina, a fim de conseguir levar o evento a diversos públicos: “Quando o grupo foi contemplado, estava nas nossas mãos fazer um bom trabalho. Então escolhemos a TV Nordestina pela qualidade que eles nos ofereceram, tanto no audiovisual, quanto pelo alcance que o festival vai ter com a abrangência de público. Com o apoio da TV a gente vai conseguir levar para outros públicos, além da nossa bolha, tudo que a gente vem trazendo, a história do Maracagrande e o peso do manifesto”, ressalta Cecília.

O Festival Maracagrande será transmitido nos dias 28 e 29 de agosto, no canal do Maracagrande no YouTube e na TV Nordestina (canal 179 no BrisaTV e demais plataformas digitais), às 19 horas.

VIApor Steffanie Alencar (sob supervisão de Diego Rodrigo)